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O sentido dos sonhos

A interpretação da ciência contemporânea é a de que os sonhos oferecem um ambiente de aprendizado sem risco. Para o neurocientista Sidarta Ribeiro, os sonhos funcionam como um oráculo probabilístico, por organizarem um número alto de memórias em novos arranjos e assim talvez nos encaminharem para novas interpretações e ideias durante a vigília. Por ser uma ferramenta de autoconhecimento e de aprendizado, os sonhos também possuem papel fundamental para o desenvolvimento da nossa criatividade e intuição. 

Em sociedades antigas, os sonhadores eram responsáveis pelo recebimento de mensagens divinas. O profeta Maomé do Islã considerava o sonho uma prática espiritual de comunicação com Alá e até hoje na cultura árabe a arte da interpretação de mensagens oníricas é digna de bastante reputação. No sufismo, o transe místico dos sonhos é atingido através da prática introspectiva. Algumas poesias de sábios sufis são interpretadas como proféticas em relação a diversos acontecimentos na península arábica desde o século XVI até os dias de hoje. 

Mas os sonhos não são somente essa espécie de “correio transcendental”. Em algumas cosmologias sofisticadas como a dos Yanomami, o sonhador não simplesmente recebe mensagens, como é também capaz de enviá-las, atuando como um porta-voz e diplomata da comunidade no mundo dos espíritos. Quando os xamãs não conseguem negociar, também podem lutar durante os sonhos. 

A “cura pela fala” oferecida pela psicanálise e pela psicoterapia valoriza essas profundas e imprevistas associações feitas nos sonhos para que, ao verbalizá-las, conheçamos partes de nós mesmas que talvez quando acordadas não consigamos ou queiramos acessar. Conhecer os nossos sonhos nos ajuda no processo que os psicólogos junguianos chamam de individuação, isto é, resumidamente, entrar no caminho de progressivamente nos tornarmos nós mesmas. 

Os sonhos significam coisas diferentes para cada teoria psicológica e mesmo dentro delas há muitas nuances sobre o papel que eles cumprem. Na tradição junguiana, pensamos os sonhos como uma via de acesso ao inconsciente. Na nossa ecologia psíquica, o consciente seria um recebedor de mensagens do inconsciente. O conteúdo dessas mensagens pode ser revelador, apaziguador, mas também aterrorizante. De qualquer maneira, essas mensagens não são apresentadas diretamente. O conteúdo dos sonhos não é literal, é preciso interpretá-los. Isso porque a linguagem da mente consciente é racional e lógica enquanto a do inconsciente é totalmente diferente: o inconsciente fala através de imagens e a interpretação das imagens não funciona da mesma maneira que a interpretação de textos ou conceitos. Ela é uma arte sutil que depende de muitos contextos. É por isso que os dicionários de sonhos não funcionam. 

Quando, por exemplo, sonhamos com uma pessoa que achamos muito generosa e que nos faz um jantar, são múltiplos os focos de interpretação possíveis. O inconsciente pode estar apontando para a própria pessoa e nossa relação com ela ou para como eu percebo a generosidade nas pessoas ou, ainda, para a minha própria generosidade que consigo personificar melhor nessa pessoa ou no ato de fazer um jantar. O mesmo pode acontecer com qualidades ruins. E se, por algum motivo, os talheres da mesa de jantar parecerem para a sonhadora mais importantes que a pessoa, a generosidade ou o jantar, o foco se vira para os talheres e vamos pensar nos seus detalhes e formas de aparição no sonho. Nenhum sonho deve por obrigação seguir a ordenação de importância que daríamos no mundo da vigília, onde as pessoas seriam mais importantes que os objetos.


Texto de Anelise De Carli para a Mandala Lunar 2022

1 Comentário

  1. Roselene Constantino

    9 de abril de 2024

    Concordo plenamente. Exercer a sutileza que os sonhos trazem é uma arte do terapeuta cotidiana. Realmente, gostei do texto: leve, claro e bem escrito.

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