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Barreiras e pontes: o ciclo da não escrita e o retorno à expressão diária

A escrita, em muitos casos, é uma forma de expressão e libertação, uma maneira de dar voz aos pensamentos e emoções que muitas vezes permanecem não ditos. Mas já que a escrita traz esses benefícios, por que deixamos de escrever por alguns períodos ou não nos dedicamos a esse hábito?

A decisão de se afastar da escrita pode ser um processo complexo, influenciado por uma série de fatores que vão muito além das nossas preferências pessoais.

Há momentos em que a escrita pode se tornar um fardo. Pressões sociais, autojulgamento e crises emocionais podem transformar o ato de escrever em uma tarefa não tão prazerosa. O objetivo deste texto é, portanto, explorar esses desafios com mais profundidade.

Não é sobre escrever frases bonitas.

Existem muitos livros sobre a maternidade. Mas a mãe de primeira viagem, aquela que nunca foi mãe antes, está suficientemente preparada para exercer sua maternidade mesmo sem ler livros renomados ou receber conselhos familiares.

Isso porque cada mãe tem seu contexto de vida singular e um filho com necessidades particulares. É um processo intuitivo onde a teoria não deixa de ter um papel importante, mas que é completamente secundário.

O mesmo acontece com a escrita: cada uma tem suas experiências de vida, relações e necessidades individuais. Não faz sentido, portanto, que todas escrevam sobre a mesma coisa e usando métodos similares.

Mas falar é fácil. Vivemos em uma sociedade que somos, o tempo todo, estimuladas e pressionadas a nos encaixarmos em padrões. Não podemos esquecer que, embora sejamos de uma geração que testemunha a força pulsante de união entre as mulheres, nós fomos objetificadas e desmerecidas por um longo período. E essas ainda são características arraigadas na cultura patriarcal. 

Adoecemos enquanto sociedade e fomos levadas a adotar condutas e aceitar padrões impostos, muitas vezes em detrimento da nossa própria individualidade. Francielle, colaboradora da Mandala Lunar, fala do lugar de usuária da Mandala e também de auxiliar das outras mulheres no uso da Mandala:

“Já houve períodos em que foi um tanto difícil escrever por me perceber muito aderida à norma e preocupada como poderia, o que eu estava escrevendo, ser visto. Preocupada com regras, com a estética. E então isso muitas vezes faz com que a gente se desconecte do nosso centro, sabe? E fique mais voltada para fora”, diz.

A  escrita  expressiva  não  se  prende  a  habilidades  literárias, nem  a  preocupações  com  a  ortografia,   gramática  ou  estrutura léxica. Mas as resistências à escrita são normais e podem ocorrer por vários motivos, dentre eles uma crítica feita pela pessoa a sua capacidade de escrever bem, por exemplo.

“Eu percebo isso, sabe? Dessa importância de se desfazer dessas amarras. E que seja uma escrita nossa para a gente. E independente se faz sentido, se vai ou não ser vista. Mas algo que seja muito nosso. E, de certo modo, também que a gente possa preservar esse espaço da gente.”, conclui.

A ‘não escrita’ e o vazio

Nos meandros da mente humana, há momentos em que a criatividade parece se retrair e a pulsão criativa, que normalmente impulsiona nossas ideias, parece se desvanecer, nos deixando com uma sensação de vazio e estagnação.

“Teve um período que eu deixei de escrever na Mandala durante o ano de 2021. Foi um ano muito difícil, emocionalmente, muito desestabilizador. Eu estava me sentindo muito perdida, muito estancada. Tudo era muito difícil. E aí, nesse ano eu não escrevi na Mandala. Gerou essa desconexão de mim comigo mesma”, conta Nídia, colaboradora da Mandala Lunar.

Quando essa chama se apaga, é como se uma parte essencial de nós mesmas estivesse adormecida, que nos deixa desorientadas e desconectadas do mundo ao nosso redor. A sociedade enfrenta uma crescente crise de saúde mental e esses períodos podem estar intimamente ligados a condições como a depressão e a ansiedade, por exemplo.

É como se as palavras ficassem presas em nossa garganta, incapazes de encontrar uma saída para o mundo. Esse bloqueio pode levar a um sentimento de desconexão não apenas com a prática da escrita, mas também com nós mesmas e com os outros ao nosso redor.

“Eu lembro claramente que eu não tinha vontade não só de escrever, mas eu não tinha vontade de fazer coisas que são essenciais para o meu bem estar. Por exemplo, eu não conseguia dançar, eu não tinha vontade ou tesão ou prazer, por cozinhar, que é uma coisa que eu amo fazer.”, conta Nídia.

 “Uma sensação de seca, de deserto, de aridez. Onde tudo está morto superficialmente.” – Nídia

Pode ser incrivelmente desafiador quando algo que costumava ser uma fonte de conforto se torna inacessível devido à ansiedade ou à depressão. É como se uma parte fundamental de sua capacidade de lidar com as emoções estivesse temporariamente bloqueada.

Nesse caso, vale considerar outras formas de expressão, como desenhar ou fazer música, e voltar gradualmente à escrita quando se sentir confortável, lembrando de não se pressionar para produzir algo perfeito.

Vale lembrar também que é nesses momentos que muitas pessoas encontram na escrita um apoio.

“A ‘não escrita’ não necessariamente tem a ver com um momento bom ou um momento ruim. E não necessariamente um vazio existencial vai levar a uma não escrita. Acho que para algumas pessoas, é justamente nesse momento de vazio existencial onde se abre um canal de criatividade”, conclui Nidia. 

Um retorno ao passado

Desde os tempos antigos, a escrita funciona como uma ferramenta poderosa para a comunicação e a reflexão humana. Ela nos permite registrar experiências, compartilhar histórias e fazer conexões que transcendem as barreiras do tempo e do espaço. 

A escrita revolucionou a comunicação porque tornou possível que nós entrássemos em contato com mensagens produzidas por pessoas que haviam morrido há séculos, ou que estavam distantes milhares de quilômetros.

Em paralelo ao processo natural de desenvolvimento do ser humano, o papel da escrita foi também se transformando e aperfeiçoando. Hoje, o ato da escrita funciona muito bem como uma forma de autoexame, uma maneira de olhar para dentro de nós mesmos e explorar os cantos mais escuros de nossa própria alma.

Escrita e expressão: Paralelos entre Anne Frank e Clarice Lispector

Com o início da Segunda Guerra Mundial, em 1939, a situação que já era difícil tornou-se ainda mais sombria para a população da Europa. Como expressa Anne Frank em seu diário:

“Depois de maio de 1940, os bons momentos foram poucos e muito espaçados: primeiro veio a guerra, depois a capitulação, em seguida, a chegada dos alemães, e foi então que começaram os sofrimentos dos judeus”.

Em 1942, ao completar 13 anos, Anne Frank ganhou um diário de presente de aniversário. Além de expressar inquietações e desejos de adolescente, ela conseguiu documentar as profundas transformações que afetavam os judeus durante aquele período.

No diário, Anne relata sua experiência com o primeiro beijo e as intensas emoções que acompanharam seus encontros com Peter van Pels. Ela descreve não apenas o momento do beijo, mas também explora os matizes de seus sentimentos, enquanto descobre sua própria sexualidade e reflete sobre as mudanças em seu corpo em crescimento, que simbolizam seu processo de amadurecimento como mulher.

“O melhor de tudo é o que penso e sinto, pelo menos posso escrever; senão, me asfixiaria completamente” – Anne Frank

Para Anne, a escrita funcionava como um espaço para respirar livremente, sem se sentir sufocada pelas circunstâncias ao seu redor. A cada página preenchida, ela desvendava o turbilhão de emoções que a consumiam, oferecendo uma janela para sua experiência única e desafiadora de viver em uma realidade angustiante.

Nesse sentido, as obras de Clarice Lispector inspiram porque são um grito profundo, um eco de angústia, um desabafo catártico que poderia se manifestar através da fala, da música, do teatro, da dança ou da pintura, mas para ela, necessariamente se dava através da escrita.

Catarse é um termo grego (kátharsis) que significa purificação do espírito humano, ou seja, é o método de expulsão, que coloca para fora aquilo que é anormal à natureza humana. O conceito foi incrementado com o passar dos anos e agregado à áreas do conhecimento, como filosofia, psicologia, religião e artes. A catarse se tornou, então, um objetivo do fazer artístico.

“Eu escrevo como se fosse para salvar a vida de alguém. Provavelmente a minha própria vida.” Clarice Lispector

Hoje em dia, a ciência já entende que escrever pode ser terapêutico. É como escolher cuidadosamente as palavras para montar um quebra-cabeça de sentimentos. É ouvir nossa alma, tirar um tempinho para relaxar por dentro e, então, selecionar, misturar e organizar os pensamentos antes de colocá-los em palavras.

Quando nos dedicamos a escrever regularmente, abrimos um espaço íntimo para explorar nossos pensamentos mais profundos, sonhos, sentimentos e até mesmo aspectos físicos do nosso ser. 

É um lugar que podemos desabafar, sofrer, inventar, tirar conclusões, nos perder e encontrar, desenhando verdadeiras e belíssimas associações livres para nós mesmas. Escrever se torna uma forma de conceber as nossas demandas inconscientes, uma interação entre experiências reais e mundo interno individual.

Esse processo de autoexame permite identificar padrões em nosso comportamento, compreender nossas emoções mais complexas e até mesmo revelar insights sobre nossa saúde mental e física.

Ao documentar não apenas nossas experiências cotidianas, mas também nossos sonhos, desejos mais profundos e até mesmo nossas sensações físicas, criamos um arquivo íntimo de nossa jornada pessoal.

Essa escrita diária não apenas nos ajuda a lembrar das lições que aprendemos ao longo do caminho, mas também nos permite mergulhar em nosso mundo interior, compreendendo melhor quem somos em um nível mais profundo.

Como diz Nídia, “A Mandala tem muito esse papel assim, de auto registro, de auto observação das nossas sensações, dos nossos sentimentos. Então, quando a gente deixa de fazer isso na Mandala, é muito mais fácil perder esse registro da vida cotidiana”.

Ela nos convida a mergulhar em nossa própria natureza cíclica, reconhecendo os ritmos internos que influenciam nossas vidas. Nos conectamos não apenas com nossos próprios ciclos, mas também com os da natureza ao nosso redor – os ciclos da lua, das estações e dos elementos.

Neste espaço sagrado da Mandala, somos livres para explorar e expressar quem somos, sem restrições ou julgamentos. Cada linha desenhada, cada matiz de cor escolhido, reflete não apenas nossa arte, mas também nossa jornada pessoal. É uma prática de introspecção e criatividade, onde podemos nos perder e nos encontrar simultaneamente.

Ao escrevermos na Mandala, abraçamos a fluidez dos ciclos da vida, aceitando nossas próprias transformações e aprendendo a honrar os ritmos naturais que nos cercam. É um lembrete gentil de que estamos todos interligados – seres cíclicos em um universo em constante movimento.

Fontes:

Benetti, Idonézia; Ferreira, Walter. O PODER TERAPÊUTICO DA ESCRITA: QUANDO O SILÊNCIO FALA ALTO. Cadernos Brasileiros de Saúde Mental, ISSN 1984-2147, Florianópolis, v.8, n.19, p.67-77, 2016. Acesso em: https://periodicos.ufsc.br/index.php/cbsm/article/view/69050/41531

Marques, Natália. Catarse: do conceito ao objetivo. https://natmarques.com/2020/06/27/catarse/

Raissa Lopes Domingos Sampaio – Escrita Terapêutica: a escrita catártica de Clarice Lispector

https://www.psicanaliseclinica.com/escrita-terapeutica/

5 Comentários

  1. Bruna P. Cestari

    6 de julho de 2024

    Como é maravilhoso ler um texto desses, faz muito bem para a alma. Para mim, a escrita é parte vital da existência desde que eu era criança. A Mandala se tornou um refúgio necessário na minha vida adulta em que só conseguia me descrever como ressecada, vazia. Essa desconexão descrita no texto me apunhalou com muita força e me trouxe muito sofrimento, porque quase todo o meu prazer e minha alegria vinham dessa atividade, que justamente foi subrepujada pelo ritmo estonteante da sociedade em que vivemos. É por isso que sei que minha coleção da Mandala só irá crescer, e me sinto abraçada pelo reforço externo de que está tudo bem não conseguir escrever de vez em quando.

  2. Débora Aparecida Rosa

    9 de julho de 2024

    A mandala lunar me orienta devolvendo pelas palavras e hiatos de escrita minha psique. Não sigo as datas das páginas mas o chamado da minha alma. Escrevo, desenho, faço colagens, anoto os ciclos, conto meus segredos. Estou no segundo ano de relacionamento com a mandala lunar, ela tem feito bem à autoanálise à criatividade. Gratidão às idealizadoras e as artistas que nos levam em uma viagem mágica pelos desenhos.

  3. Silvia

    9 de julho de 2024

    Que texto necessário no momento certo. Confesso que é minha primeira mandala e comecei o ano muito assídua, até que comecei a perceber que eu só escrevia problemas e reclamava, e aquilo começou a me incomodar absurdamente, além disso tem sido um ano difícil pra minha saúde física e mental. Espero consegui me reencontrar.

  4. Mercia Felinto

    10 de julho de 2024

    Ainda não consigo escrever regularmente, nao completei nenhum cliclo. Apesar de ser minha primeira Mandala, não tenho sido atenciosa em cuidar de mim. Mas sei quê as poucos vou conseguir. Acho esses textos importantes, tanto para minha reflexão, como também, perceber à atenção de vocês com essa rede que se forma a partir da Mandala Lunar.

  5. Amanda Rodrigues

    10 de julho de 2024

    Esse texto junto ao e-mail que me enviaram, chegaram no momento certo! De maio á junho, eu não escrevi regularmente em minha Mandala, e todos os dias eu me culpava por não conseguir tempo, ou então quando tinha tempo, sentia que não tinha energia… Passei um tempo fora do meu ser, sem energia para fazer quaisquer atividades que envolviam a criatividade. Eu como um boa geminiana, não sobrevivo sem exercer minha criatividade, então passei esse tempo muito mal. Estou voltando com o hábito da ecrita ativa após o dia do meu aniversário, e já me sinto bem melhor. Com a Mandala, eu expresso meus sentimentos que carrego dentro do peito e não conto para mais ninguem. Ela é minha porta-voz, e me acolhe tão bem em todos os momentos. Me identifico com a fala de Clarice, pois a Mandala me ajuda a olhar para dentro, observar para salvar a mim mesma.

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