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Multiplicidades do Ser Mulher

Por Neon Cunha

Desde que me reconheci mulher, aos 2 anos e meio de idade, a consolidação desse perceber-se veio também. Me entendi completamente pelos 4 anos, quando acompanhava minha mãe nas faxinas e recebi meu atestado de excelência ao arear/polir uma tampa de panela com tanto esmero que foi comparada a um espelho. No mesmo período, já ajudava nos cuidados com outras crianças. Não, eu não brincava com bonecas. Aprendi nesse processo que não se brinca com vidas humanas, ainda mais as indefesas. Com o nascimento de minha irmã, entendi que o laço – para além do afetivo, mas talvez o de responsabilidade – imposto às mulheres é bem diferente. Não existiam dúvidas sobre quem eu era.

 Nesse pertencimento da mulheridade negra, ameríndia e transgênera que só cabe em mim mesmo, entendi tantas coisas: que o meu feminismo é construído nas valas onde sociedades modernas são erguidas, onde os corpos das minhas ancestrais foram ocultados e ainda brota. Um feminismo que tem muito da dororidade que não é contemplada na sororidade branca e cisgênera.

O aprendizado desse feminismo é compartilhado com mulheres encarceradas em presídios femininos, abandonadas por suas famílias, ou em masculinos, onde mulheres têm sua identidade negada. Meu feminismo clama por dignidade quando mulheres que passaram por esse sistema prisional anseiam por um trabalho análogo à escravidão porque o capitalismo opera desta forma: tira e negocia nossa humanidade.

Meu feminismo grita quando penso na Amazônia em chamas, com mulheres indígenas, ribeirinhas e quilombolas tendo suas terras invadidas, suas vidas dizimadas mais uma vez, diante de uma nação amortizada pela precarização contínua de sua educação e formação.

Meu feminismo não se sente acolhido pelo “ninguém larga a mão de ninguém” enquanto mulheres trans e travestis são privadas de reconhecimento social e de direitos básicos, algo que não se dissocia da opressão patriarcal que segue impondo também às mulheres cisgêneras a violência da expectativa de um ideal hegemônico, universal, que constitui o ‘ideal de mulher´.