Não porque seu corpo saiba que é domingo, mas porque seu corpo sabe o que é descanso!
Para o seu corpo, o que importa é a lua nova ou cheia, verão ou inverno e se você está na fase crescente ou minguante do seu ciclo menstrual — o problema não está no seu ciclo, mas na impossibilidade de vivenciá-lo. TPM não é uma fase do ciclo menstrual, TPM é um conceito que faz parecer desequilíbrio feminino o que, na verdade, é um problema social.
Neste texto, vou contar duas histórias que me aconteceram recentemente…
Neste semestre, enquanto eu participava de um grupo de debate sobre saúde mental da mulher com profissionais de diversas áreas — médicos, psiquiatras, médicos integrativos, professores, psicólogas, professores de ioga e de meditação — foi levantada uma questão muito importante sobre como mulheres que tinham algum tipo de neurodivergência sofriam muito intensamente com a TPM. (Obs.: aprofundaram o conceito patologizante de TPM para transtorno disfórico pré-menstrual [TDPM]). A solução, segundo os médicos, era medicalizar e interromper o ciclo menstrual para evitar crises de saúde mental, falavam de contraceptivos como ferramenta de saúde mental. Isso me pôs a pensar e me posicionar calorosamente no grupo:
Como nós, enquanto sociedade, estamos tratando o descanso, o repouso e a introspecção?
Em outro texto aqui no blog da Mandala, falamos sobre o período pré-menstrual e sobre como a progesterona é um hormônio antiansiolítico natural, que relaxa e tranquiliza, que desacelera e pede pausa.
A tensão na fase de predominância da progesterona é facilmente manejada com descanso e autocuidado. Mas será que é possível, no mundo moderno, descansar, relaxar, não produzir? Será que é possível para as mulheres não estarem bem dispostas, arrumadas, bonitas e acolhedoras? Será que é possível vivenciarmos um domingo de chuva em plena segunda-feira cheia de tarefas?
Eu vejo a irritabilidade em mim, nas mulheres ao meu redor, nas pessoas que atendo, eu sei que ela existe, é real e, muitas vezes, desnorteia e nos faz “explodir”.
Mas, avalie, você explodiu ou acumulou cansaço, tarefas, engoliu sapos o mês todo e agora só transbordou, teve a coragem (que só a anciã traz) para falar “não”, impor limites e ser uma “mulher difícil”?
Será que o inchaço e a irritabilidade, o choro, esses sintomas permaneceriam se pudéssemos descansar? Ter uma boa alimentação garantida? Será que existiria TPM se tivéssemos uma roda de mulheres com que contar, para deitar no colo e pedir um cafuné?
Será mesmo a tal tensão pré-menstrual ou será o capitalismo que não nos deixa espaço de descanso e vulnerabilidade?
Ah, além da irritação, tem o choro, a vulnerabilidade — o período pré-menstrual não traz só irritação, ele expõe nossas vulnerabilidades, ele nos leva a SENTIR.
Agora conto uma segunda historinha que me ocorreu esses dias: (contém gatilhos, especialmente se você é sensível às causas animais)
Eu entrei em um pequeno mercadinho de bairro e tinha um passarinho preso em uma gaiola, um bem-te-vi, muito lindo numa gaiola muito pequena. Quando eu vi esse passarinho preso, me doeu na alma, me embrulhou o estômago e, sem pensar duas vezes, perguntei ao homem:
– Quanto custa esse passarinho? Quero comprá-lo!
– Custa R$2.000.
Eu já estava pronta para juntar minhas economias e comprar o passarinho para soltá-lo. Eu estava no período pré-menstrual; em qualquer outra fase do ciclo, talvez eu não tivesse mergulhado numa emoção tão intensa de dor, por aquele e pelos outros passarinhos — meu marido, que sabe das minhas fases do ciclo como ninguém, nem me questionou, só ficou em silêncio observando. Na minha cabeça, cantava um samba de coco que diz “passarinho na gaiola, quando canta é de tristeza.”
Então, o homem começou a rir e disse:
– Brincadeira, moça, esse passarinho não tá à venda, ele é o amor da minha vida, olha como canta bonito.
Fui embora e chorei, chorei pela ignorância do homem por achar aquilo bonito, chorei pelos animais, pelas plantas, pelas mulheres, me pus a chorar, a sentir.
E sentir requer a coragem que só a maturidade da fase final do ciclo pode nos dar.
Neste mundo, sentir pode doer demais, e, até conseguimos evitar isso, até que chega o período pré-menstrual, aí toda tristeza, o choro engolido, a dor empática que sentimos pelo outro, aí ela toma conta, e nos pede coragem.
O período menstrual nos pede duas coisas simples: descanso e coragem para sentir!
De nada adianta cessar seu ciclo com hormônios, parar de sentir. Como humanos, como almas em crescimento, teremos que desenvolver as virtudes que a fase final do ciclo nos pede, e, se medicalizadas, evitamos sentir a raiva e a tristeza, ainda assim, teremos que enfrentá-las cedo ou tarde, porque faz parte de ser humano.
Marque aí na sua Mandala Lunar, como quem anota no bloco de notas as tarefas do trabalho:
– Na fase minguante do meu próximo ciclo:
Eu vou dizer “não” sem me preocupar em ser mau vista.
Eu vou chorar as dores que me atravessaram e me atravessam.
Eu vou fazer um escalda-pés bem quente, com sal grosso e cascas de laranja.
Eu vou escrever uma carta para mim, para quem eu amo e até para meus desamores.
Eu vou me lembrar, a cada 30 minutos, de respirar consciente, relaxar os ombros, tirar a língua do céu da boca.
Eu vou dormir até mais tarde, cancelar aquele rolê com as amigas, faltar na festa do trabalho.
Eu vou e posso faltar na academia para ir ver o pôr do sol.
Faça um compromisso com você como quem assina um contrato, anote aí na sua Mandala!
E depois de 3 meses de prática de limites, aceitação radical do sentir, escuta de si e autocuidado, venha cá e conte pra gente, você ainda tem TPM?
Para 2026, desejo que você aprenda a amar os domingos de chuva dentro de você!
Texto de Bárbara Ferreira – Erveira, Educadora e Cuidadora (@barbara.f.erreira) para a Mandala Lunar
Arte de Ula Basinska