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O Território Invisível das Emoções

De onde vem o nosso Território Emocional? 

As Emoções surgem DEVAGAR para nos colocar em contato com ele (o Mundo). 

Antes de qualquer razão, o corpo já responde. 

Ele registra os nossos impactos, memoriza, e deixa marcas em nosso DNA.  

O nascimento, por si só, é uma ruptura, já é um TRAUMA. Não há neutralidade nesse gesto inaugural.  

(risos)… sim parece confuso, mas, nesse momento, houve corte, luz, som, gravidade, separação.  

O corpo deixa um registro de continuidade e passa a existir em um mundo de interrupções. 

Não como algo errado, mas como marcas que o cotidiano nos pede para resolver. 

A vida já se inicia e sem manual de instruções…. 

Por isso, o equilíbrio não é algo dado.  

Para muitos povos Bantu, a emoção não é algo escondido ou inimaginável que precisa ser explicado, não! Não é bem assim, é, mas de uma forma de ser vivida para ir se explicando através do tempo e da natureza. 

Então, para eles, ela é o sinal de que a vida tocou o corpo 

(profundo, né?), potente.. São como formas de estratégias para chegar ao FOCO! 

O corpo sente porque está relacionado com a terra, com os outros, com os encantados e com os animais.  

Como diz Nêgo Bispo: “O pensamento colonial é linear. 

O pensamento dos povos da terra é circular.” 

Então, para os povos da terra, é sobre Circularidades.  

Os Bantu pensam assim porque não separam pessoa, comunidade e mundo. 

O que se move em um corpo diz algo do que está se movendo ao redor dele.  

Nem tudo precisa de entendimento imediato. Algumas experiências existem para atravessar, ajustar, amadurecer o ritmo da vida. 

Por isso, o cuidado não começa na explicação, mas na permanência. Ficar. Sustentar. Deixar fluir, para que assim o aprendizado seja facilitado.  

Como dizem os povos Kongo, de Matriz Bantu (região atual de Angola, Congo e RDC): 

“Muntu ke muntu na bantu.” 

(língua kikongo) 

Uma pessoa só é pessoa por meio das relações.

E eu falo uma coisa para você, isso tudo não é um estado permanente, calma! 

É mais um movimento contínuo de ajustes, sabe?! 

É quando o nosso sistema pede uma atualização (risos)… O corpo aprende a sobreviver antes mesmo de compreender.  

Muitas emoções nascem como defesa, como aviso, como tentativa de manter a vida em seu habitat natural de conforto. 

E.. quem disse que existir é fácil? Temos nossos picos de alegria, dor, medo, amor, não é isso? É um sinal de que estamos vivos.  

O problema nunca foi sentir demais. O problema é não ter tempo, espaço ou permissão para atravessar o que se sente!!! 

Nem toda emoção vem para ensinar algo, algumas vêm para serem vistas e deixadas como marcas. 

Quando o corpo é obrigado a gastar quase toda a sua energia apenas para sobreviver, se alimentar, se abrigar, se proteger, temos pouco espaço para nos sentirmos com presença. Sistemas que transformam a sobrevivência em dívida produzem corpos cansados demais para lembrar quem são. Dentro de uma Cosmovisão, sentir também é Necropolítica, pois nem todos têm a condição de sentir com calma, assim, vamos cada vez menos existindo e reexistindo, estruturas de poder sempre dependeram da exaustão para se manter. 

Nesse contexto, as emoções se tornam incômodas porque interrompem o funcionamento robótico e automático.  

Elas lembram que existe algo além do desempenho, da produção, da adaptação constante. Sentir é um gesto de resistência e é totalmente ANCESTRAL, pois quem tem acesso aos seus ancestrais entende seu corpo como território. 

Ascender, talvez, não seja estar sempre melhor, mais elevado ou mais resolvido. Talvez seja estar mais inteira(o). 

Permitir que o bom e o difícil coexistam sem hierarquia. Sem negar o corpo. Sem negar a experiência. 

A emoção não é um enigma a ser resolvido. 

É um território a ser habitado. 

Esse é seu habitat natural e ele precisa ser continuado e circularizando…. 

E aí, por onde você vai começar a construir e cuidar do seu Território?  

Caras irmãs do Sagrado, este texto de cura e despertar veio por meio de minhas dores, como Mulher Preta nesta sociedade, trazendo toda a minha emoção e amor, ao que me dediquei e vivi nesses anos em um lugar tomado pelo colonialismo, tanto pela minha ancestralidade geográfica como também pelo lugar de onde fui criada, nas margens (Reserva) do Alto Xingu Povo Coré — Município de Tapurah-MT — Local tomado e colonizado por fazendeiros e Gauchos do local.  

Lugar onde eu não sabia expressar minhas emoções, pois fui calada e silenciada, não sabia quem eu era, e o que vinha até a mim só me retirava cada vez mais de quem eu era… Me afastando do meu corpo e do meu território. E esse foi o registro que deixaram em meu corpo. 

Foi então que decidi olhar para cima, ir em busca da sabedoria e transformar tudo isso em um Território onde somente eu posso entrar e escolher quem chega, assim transformando todos os meus traumas e emoções em resolução daquilo que já foi. 

Malembe Malembe 

devagar, com cuidado, no tempo certo

Texto de Andresa Vaz, do Raízes Corpo Terra
Arte de Karla Ruas

1 Comentários

  1. Louise

    18 de janeiro de 2026

    Esse texto chegou a mim em boa hora. E viva o corpo que pode, pois como diz Vigotsky, é em movimento que um corpo se mostra

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