Numa noite de verão, depois de uma pizzada em família, passeio pelas prateleiras do empório do restaurante e bato os olhos num livro roxo. Uma lua dourada no centro.
Mandala Lunar. Abro e me encanto com narrativas desconhecidas sobre os mistérios e os ciclos que regem os corpos femininos. Desconhecidas para a minha mente, mas estranhamente familiares ao meu corpo, que se acendia dos pés à cabeça.
Pinturas lindas de mulheres em comunhão com a Terra, manifestos pela ressignificação da nossa relação com a natureza que somos, conhecimentos preciosos sobre a ciclicidade dos nossos corpos.
Levei a Mandala pra casa e ali começava uma jornada rumo à autonomia que fui construindo ao começar a me ver como parte das paisagens que teciam meu cotidiano.
Sentar, olhar o papel, começar a escrever.
Mas escrevo o quê, exatamente? Que tosco me parecia isso de me apresentar às folhas e dizer quem sou, como se eu soubesse. Sentia vergonha e constrangimento nisso de começar a me narrar. Mesmo me parecendo tosco, eu tinha uma necessidade visceral de fazê-lo.
Aqui quem escreve é a Gabriela.
Comecei.
Hoje de manhã acordei atrasada. No impulso de me levantar, perdi as lembranças dos sonhos. Tomei café da manhã correndo, amarrei uma espada de São Jorge na minha bicicleta e saí no caminho de sempre.
Eram quase que listas, narrações cruas dos acontecimentos repetitivos dos dias que se passavam. Uma escrita que se revelava sem muitos adornos e intenções estéticas e que muitas vezes foi tediosa. Isso de se escrever envolve um auto-olhar cru e uma percepção distanciada de como contamos nossas histórias. Não me reconhecia nas minhas próprias palavras e perdi as contas das risadas que soltei ao reler certos trechos. Não é possível que eu tenha contado essa história dessa forma. Quantas máscaras de monstro eu já confeccionei, cheia de malabarismos teóricos, para esconder as faces de certas coisas que hoje sequer me assustam. Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come. Se encarar, o bicho some!
Nisso há valor e beleza: perceber como nos transformamos ao mudar sutilmente as narrativas que repetimos incessantemente sobre nós mesmas. Olhar para mim e entender que talvez a história que eu queira contar a meu respeito seja outra. Talvez a personagem que eu quero ser na minha vida seja outra, talvez eu queira ser a personagem principal e não uma mera coadjuvante. Ou talvez eu precise abandonar de vez a ideia de personagem e simplesmente ser.
Narrar-se pode ser um ato perigoso, não é por acaso que tantas mulheres foram historicamente afastadas da escrita de si. Narrativas descredibilizadas por um sujeito universal que, a todo dia, tenta nos convencer que sabe mais sobre quem somos do que nós mesmas. A escrita diária inaugurada na minha vida naquela noite de quase outono me conectou com uma potência de habitar um espaço que não precisa agradar ninguém além de mim mesma. Aí que entra o perigo.
O que se revelava nas entranhas do meu cotidiano? Que padrões são esses que me regem? Como os sinto no meu corpo? Será que eu sustento a percepção de que há tanto a ser transformado aqui dentro?
Enquanto preenchia minha Mandala com sintomas de cólicas agudas, dores no pescoço e momentos insurgentes de raivas repentinas, escrevia sobre os sonhos que eu sentia distantes, sobre meus desejos de pertencer e me encaixar, sobre uma vontade de ser amada e de viver uma vida radicalmente diferente daquela que se apresentava à minha frente.
Lembro com tanta nitidez (e muita ternura!) de uma das noites mais dramáticas da minha vida. Sentada no banco de vaporização de útero. A Mandala encharcada de lágrimas. As ervas já frias fazia tempo e eu lá, sentindo no corpo a recusa em soltar certas coisas.
Comecei a perceber que minha libido aumentava quando me sentia desejada pelo olhar alheio, algo que me trazia lucidez a respeito de como eu vinha me enxergando e colocando nas minhas relações. A percepção de que o álcool acentuava uma melancolia nos dias antes do meu sangue descer me deu a liberdade de, às vezes, sim, negar uma cerveja. Notei que, quando eu me deixava dominar pela vontade de que tudo fosse diferente, deixava de agir em direção a essa mudança. Incorporei a certeza de que quando eu mexo meu corpo, danço, pinto e me expresso na presença de amigas queridas, me sinto gigante e potente — confortável sendo do meu próprio tamanho. Passei a entender que o sentir prazeroso poderia ser uma bússola a me apontar novos caminhos.
A escrita começou a (des)organizar estruturas internas, comecei a aprender o manejo da minha vitalidade. Tudo isso que aquele livro roxo tornou consciente já acontecia e me regia sem que eu percebesse. A cada história que eu decidia contar de uma nova forma, crescia a certeza de que seria impossível voltar a ser quem se era. A escrita virou uma ferramenta para adubar potências e compostar todas as dores, fazendo um adubo que servisse à expressão genuína e autêntica da minha verdade.
Os paralelos traçados com a linguagem que meu corpo apresentava por meio dos seus sintomas trouxeram mais e mais autonomia. E foi na presença da Mandala que senti os primeiros sabores do que significa ser soberana dentro do meu próprio corpo. Conhecer um pouco da vastidão dos meus cheiros, texturas, gozos, lágrimas, gritos e alegrias. Aprender a navegar meus altos e baixos e me aceitar com todas as minhas contradições. Não para me consertar, mas para me habitar inteira e permitir que todas as minhas partes encontrem pertencimento dentro de mim.
As histórias que pensamos, contamos e narramos se tornam quem nós somos. Se eu não as escrevo, corro o risco de virar refém. Elas ficam ali, me conduzindo enquanto inflamam minha cabeça de pensamentos em redemoinho.
A conexão com a auto-observação que a Mandala me trouxe é mais que um exercício estético ou terapêutico. Passou a habitar minha vida como um gesto político no sentido mais íntimo da palavra: escolher não delegar a outros a narrativa da minha própria existência. Ao escrever e me olhar, aprendo a escutar as manifestações mais silenciosas do meu ser. Ainda tem drama e melancolia e a jornada não é muito romântica — embora, às vezes, tudo que eu preciso é narrá-la como tal! Infelizmente, tomar consciência de certas coisas não é suficiente por si só para mudá-las e algumas palavras seguem sendo difíceis de serem pronunciadas — talvez nem precisem ser. Nesses quase 7 anos de Mandala Lunar, fui aprendendo a contar a história da minha vida com mais inteireza, ocupando meu corpo e meu ser para muito além das páginas de um pequeno e lindo livro roxo que encontrei no empório de uma pizzaria.
Texto de Gabriela Cotello para a Mandala Lunar.
Arte de Natália Gregorini