Existe um instante, antes de o dia começar e antes de terminar, em que o mundo está mais poroso. Toda cultura cria modos de habitar esses limiares. Entre muitos povos amazônicos, por exemplo, esse trânsito é reconhecido: os cães sonham, os humanos sonham, e ambos ajustam suas percepções para seguir vivendo num ambiente que não é feito apenas de humanos.
O antropólogo Eduardo Kohn descreve um mundo em que os cães são capazes de produzir imagens, sinais, miragens oníricas que também orientam relações, caçadas, cuidados, alianças. Uma “ecologia de selves”, como ele chama, em que humanos e não-humanos se influenciam mutuamente.
Donna Haraway diria que humanos, cães, gatos, espíritos, florestas, são “espécies companheiras”, que ampliam os modos de pensar com outros, de respirar junto ao mundo. E Vinciane Despret lembraria que aquilo que chamamos de “ritual” não é sobre domesticar o mistério, mas dar condições para que algo aconteça.
Com essa atmosfera, o despertar e o anoitecer são limiares a ser habitados. Em companhia com a Mandala Lunar e o Sonhário, podemos vivenciar o tempo como situação de possibilidade. Momentos de ajustar o corpo e a atenção para ouvir a si, ao dia, aos sonhos, ao que mais estiver falando.
Ao anoitecer, os Runa* observam os cães que adormecem junto ao fogo. Primeiro as orelhas tremem, depois as patas ensaiam uma corrida invisível. No escuro, o corpo do cão conversa com outro mundo. Cada espasmo é um sinal, cada suspiro é um aviso, cada movimento é uma mensagem que não se escreve com palavras.
Eles chamam isso de uma “linguagem lateral”, porque não vem de frente: vem por dentro, por trás, pelas bordas entre o sonho e a vigília. Dizem que, se você souber olhar, o cão te mostra por onde andar no dia seguinte.
Tsita é a palavra runa (quíchua amazônico) para preguiça — o animal mesmo, a preguiça de três dedos. Mas a tsita não aparece apenas como bicho: ela é também um tipo de presença onírica, um sinal que chega pelos sonhos e que pode orientar decisões, presságios e caminhos. Quando alguém sonha com uma tsita, isso não é “apenas um sonho”: é uma mensagem do mundo, uma comunicação atravessando fronteiras entre espécies.
E para os Runa, essa presença onírica tem força porque a preguiça, no cotidiano, já habita esse entre-lugar: move-se devagar, vive distante do solo, tem uma fisionomia que escapa às categorias comuns de animalidade. Ela “aparece e desaparece” na copa das árvores como se estivesse sempre meio dentro e meio fora do visível. Por isso, sonhar com uma tsita é receber um recado que vem de lado, uma mensagem que dobra o mundo. É o que Kohn chama de linguagem lateral — uma forma de comunicação que não vem pelo logos, mas pelo gesto, pelo ritmo, pelo sonho.
“Os recados importantes nunca vêm pela frente”, contou uma anciã. “Eles vêm pelo canto do olho.”
O sonho, nesse entendimento, não é mensagem direta: é dobra, sombra, reflexo num rio que treme.
Nós talvez não tenhamos cães adormecidos ao redor da fogueira, nem palavras para nomear a tsita. Mas também vivemos rodeadas por sinais que não caminham em linha reta.
Há noites em que uma frase do sonho insiste como pedra no bolso. Há imagens que se repetem sem motivo aparente, como se viessem de outro reino, pedindo passagem. Vinciane Despret diria que a pergunta não é “o que isso significa?”, mas “o que isso faz acontecer quando eu deixo existir?”. Inclinar o olhar para a borda do dia. Inclinar a atenção para o que só aparece quando não estamos procurando.
Ao anoitecer, parece que o mundo escorrega para uma outra textura. Mais lenta, mais porosa, mais propícia para a escuta daquilo que o dia, com seus ruídos, não permitiu ser percebido. Dizem que a noite é quando o pensamento “abre laterais”. É a hora dos sonhos, presságios e pequenas lembranças. Podemos, então, fazer parentes com a noite.
Nós também temos nossos cães imaginários dormindo perto da fogueira, respirando fundo, tremendo as pálpebras. É neles, ou no que eles simbolizam, que podemos nos apoiar quando o escuro começa a pensar.
O ritual do anoitecer não precisa de incenso, velas ou cerimônias. Ele começa quando você decide fechar o dia. Fechar não no sentido de terminar, mas de recolher.
Um ritual pode ser tão simples quanto guardar o celular em outro cômodo, permitindo que o quarto volte a ser território do corpo e não das notificações. Pode ser um tempo para cuidar de si, lavar o rosto como quem retira as últimas poeiras da vigília. Pode ser um momento de automassagem, para agradecer pela travessia do dia. O essencial é o gesto de entrega, que prepara a mente para atravessar o portal entre vigília e sonho. Porque a noite não é só pausa; é laboratório, oficina de imagens. É campo onde o mundo passa sua linguagem por dentro do nosso corpo.
O ritual do anoitecer é uma delicada preparação do terreno, para que a noite, suas companhias invisíveis, possa fazer seu trabalho em nós. Haraway escreveria que, ao anoitecer, entramos numa “zona de contato” com uma multidão de presenças: memórias, pensamentos, espíritos, animais, ancestrais, desejos. Por isso, propor um ritual noturno é propor uma forma gentil de despedir-se do dia e ajeitar a casa para receber a noite.
Acordar é como quem afina a escuta. O ritual do despertar permite que o dia comece sem pressa, como quem atravessa um portal, ouvindo os ecos da noite.
Tanto no amanhecer quanto no anoitecer, a escrita é uma ferramenta de respirabilidade. Ela não precisa ser ritualizada todos os dias. Ela não exige perfeição, nem disciplina rígida. Ela apenas pede um mínimo de presença. O alerta aqui é importante: não transformar ritual em culpa. Rituais existem para sustentar, não para oprimir.
Se um dia você só consegue escrever uma frase, ótimo. Se outro dia escreveu nada, tudo bem. Se quer escrever no ônibus, na aula, no banheiro, no intervalo — perfeito. O ritual existe para você, não o contrário.
Podemos dizer que nossos registros são também uma “ecologia de selves”: restos, rastros, marcas de quem fomos naquele instante. A partir de Despret, entendemos que a atenção cria mundos: o que anotamos se torna mais vivo, mais potente. A partir de Haraway, lembramos que escrever é sempre um gesto de coabitação com nossas versões passadas, com nossos desejos futuros, com tudo que compõe nossa existência.
Ritualizar o início e o fim do dia é cultivar uma prática de coexistência com o que vive em nós. É dizer para o mundo:
“Estou aqui, acordando de novo e, depois, estou aqui, atravessando a noite, aprendendo a sonhar.”
*Em quíchua, a palavra “runa” ou “runakuna” significa “povo” ou “homem”. Os Quíchua são povos indígenas andinos que falam a língua quíchua, encontrados principalmente no Peru, Bolívia, Equador, Chile, Colômbia e Argentina.
Texto de Laura Pujol para a Mandala Lunar